Feira Cultural da Reforma Agrária e a construção do poder popular

Escrito por: Rafael Villas Bôas* • Publicado em: 14/12/2016 - 13:14 Escrito por: Rafael Villas Bôas* Publicado em: 14/12/2016 - 13:14

Uma das características do poder hegemônico é fazer com que o modo de produção dominante seja aceito por todos como o melhor ou, ao menos, o inevitável. Para isso é necessário investir pesado em publicidade, em poder repressivo, em desqualificação das experiências que representam projetos de sociedade contrários ao seu.

Apesar dos milhares de reais que o agronegócio investe em campanhas de legitimação de seu modo de produção, como na campanha Sou Agro, que procura vender a ideia que vivemos todos numa imensa e moderna fazenda chamada Brasil, tem se tornado cada vez mais difícil defender um modo de produção que nos torna o país que mais consome agrotóxico no mundo, que desmata em alta velocidade os biomas, tornando a paisagem monocromática e uniforme com os monocultivos de commodities agrícolas, que tem sido responsável pela diminuição da vazão dos rios e pela crise de abastecimento hídrico nas cidades, e que depende permanentemente dos subsídios bilionários do Estado para que o setor siga sobrevivendo.


Em contraponto a esse modelo destrutivo, excludente e desigual, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra tem investido na realização de Feiras da Reforma Agrária nos centros urbanos, permitindo o acesso à classe trabalhadora de alimentos diversificados, produzidos sem agrotóxico, e mais baratos do que aqueles de menor qualidade e vendidos em supermercados.

O efeito de desmonte dos estereótipos que carimbam a luta do MST como “inconsequente” e “violenta” é imediato, na medida em que aqueles que transitam pela feira percebem o casamento entre atividades culturais qualificadas, debates e oficinas que visam democratizar o conhecimento de amplo repertório de temas de interesse da vida democrática – a democratização da cultura e da comunicação, a alimentação saudável e o que a cidade come, o debate sobre o papel da mulher na sociedade e as formas de violência, a conjuntura nacional e a reforma agrária – e o contato direto com os camponeses assentados e acampados que produzem e beneficiam os alimentos e artesanatos vendidos na feira.

Como sair de um espaço como esse acreditando que os militantes do MST são baderneiros? Como acreditar na ladainha da TV de que a reforma agrária é uma bandeira ultrapassada, superada pelo agronegócio?


Em Planaltina, a cidade mais antiga do Distrito Federal, o MST realizou a primeira das feiras previstas no 1º Circuito de Feiras e Mostras Culturais do Distrito Federal e Entorno, que seguirá por Formosa (GO), Brazlândia (DF) e Unaí (MG). Em todas elas a cultura política proposta pela Reforma Agrária Popular integrará a produção artística à produção de alimentos saudáveis e promoverá debates e oficinas com o intuito de aproximar o público do campo e da cidade, reconhecendo na luta do povo o protagonismo da resistência civil que pode fazer frente ao golpe midiático-parlamentar-jurídico que estamos vivendo.

No dia 11 de dezembro de 2016, um domingo pela manhã, enquanto famílias faziam a feira conhecendo a produção dos assentamentos, cerca de cinquenta pessoas,  camponeses, jovens estudantes, professores, e militantes de movimentos sociais urbanos, participavam ativamente de debate sobre “O papel das mulheres na sociedade e as formas de violência”, assessorado por Mariana, uma militante do Levante Popular da Juventude e por Rosmeri, da Escola Nacional Florestan Fernandes do MST. Metade dos presentes era formada por homens, e discutiam as maneiras de envolvimento na luta feminista, se o objetivo comum entre homens e mulheres é lutar contra o patriarcado e pela construção do poder popular, capaz de fazer frente ao avanço destrutivo da mercantilização da vida.

Com as feiras o MST permite que a cidade compreenda que a reforma agrária não é uma pauta do passado, que o debate sobre produção de alimentos saudáveis é uma questão de segurança e soberania alimentar, que a luta popular é legítima e que deve dispor dos seus próprios meios artísticos e de comunicação para se fazer representar, e que temos experiências acumulada nos movimentos sociais de massa do campo brasileiro para se somar com os movimentos urbanos e engrossar o caldo da resistência popular ao golpe e fortalecer as providências necessárias à construção do poder popular.

*Rafael Villas Bôas é Professor do campus de Planaltina da UnB, Pesquisador dos grupos Modos de Produção e Antagonismos Sociais e Terra em Cena: Teatro, Audiovisual e Educação do Campo

Título: Feira Cultural da Reforma Agrária e a construção do poder popular, Conteúdo: Uma das características do poder hegemônico é fazer com que o modo de produção dominante seja aceito por todos como o melhor ou, ao menos, o inevitável. Para isso é necessário investir pesado em publicidade, em poder repressivo, em desqualificação das experiências que representam projetos de sociedade contrários ao seu. Apesar dos milhares de reais que o agronegócio investe em campanhas de legitimação de seu modo de produção, como na campanha Sou Agro, que procura vender a ideia que vivemos todos numa imensa e moderna fazenda chamada Brasil, tem se tornado cada vez mais difícil defender um modo de produção que nos torna o país que mais consome agrotóxico no mundo, que desmata em alta velocidade os biomas, tornando a paisagem monocromática e uniforme com os monocultivos de commodities agrícolas, que tem sido responsável pela diminuição da vazão dos rios e pela crise de abastecimento hídrico nas cidades, e que depende permanentemente dos subsídios bilionários do Estado para que o setor siga sobrevivendo. Em contraponto a esse modelo destrutivo, excludente e desigual, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra tem investido na realização de Feiras da Reforma Agrária nos centros urbanos, permitindo o acesso à classe trabalhadora de alimentos diversificados, produzidos sem agrotóxico, e mais baratos do que aqueles de menor qualidade e vendidos em supermercados. O efeito de desmonte dos estereótipos que carimbam a luta do MST como “inconsequente” e “violenta” é imediato, na medida em que aqueles que transitam pela feira percebem o casamento entre atividades culturais qualificadas, debates e oficinas que visam democratizar o conhecimento de amplo repertório de temas de interesse da vida democrática – a democratização da cultura e da comunicação, a alimentação saudável e o que a cidade come, o debate sobre o papel da mulher na sociedade e as formas de violência, a conjuntura nacional e a reforma agrária – e o contato direto com os camponeses assentados e acampados que produzem e beneficiam os alimentos e artesanatos vendidos na feira. Como sair de um espaço como esse acreditando que os militantes do MST são baderneiros? Como acreditar na ladainha da TV de que a reforma agrária é uma bandeira ultrapassada, superada pelo agronegócio? Em Planaltina, a cidade mais antiga do Distrito Federal, o MST realizou a primeira das feiras previstas no 1º Circuito de Feiras e Mostras Culturais do Distrito Federal e Entorno, que seguirá por Formosa (GO), Brazlândia (DF) e Unaí (MG). Em todas elas a cultura política proposta pela Reforma Agrária Popular integrará a produção artística à produção de alimentos saudáveis e promoverá debates e oficinas com o intuito de aproximar o público do campo e da cidade, reconhecendo na luta do povo o protagonismo da resistência civil que pode fazer frente ao golpe midiático-parlamentar-jurídico que estamos vivendo. No dia 11 de dezembro de 2016, um domingo pela manhã, enquanto famílias faziam a feira conhecendo a produção dos assentamentos, cerca de cinquenta pessoas,  camponeses, jovens estudantes, professores, e militantes de movimentos sociais urbanos, participavam ativamente de debate sobre “O papel das mulheres na sociedade e as formas de violência”, assessorado por Mariana, uma militante do Levante Popular da Juventude e por Rosmeri, da Escola Nacional Florestan Fernandes do MST. Metade dos presentes era formada por homens, e discutiam as maneiras de envolvimento na luta feminista, se o objetivo comum entre homens e mulheres é lutar contra o patriarcado e pela construção do poder popular, capaz de fazer frente ao avanço destrutivo da mercantilização da vida. Com as feiras o MST permite que a cidade compreenda que a reforma agrária não é uma pauta do passado, que o debate sobre produção de alimentos saudáveis é uma questão de segurança e soberania alimentar, que a luta popular é legítima e que deve dispor dos seus próprios meios artísticos e de comunicação para se fazer representar, e que temos experiências acumulada nos movimentos sociais de massa do campo brasileiro para se somar com os movimentos urbanos e engrossar o caldo da resistência popular ao golpe e fortalecer as providências necessárias à construção do poder popular. *Rafael Villas Bôas é Professor do campus de Planaltina da UnB, Pesquisador dos grupos Modos de Produção e Antagonismos Sociais e Terra em Cena: Teatro, Audiovisual e Educação do Campo



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