A inclusão real

A inclusão real

Escrito por: Zilmar Dias Figueiredo - Deficiente visual do Coletivo Nacional da CUT. professor de história base do SINDUTE MG. Publicado em: 06/12/2014 Publicado em: 06/12/2014

A inclusão real
Por ZIlmar Dias Figueiredo

Na década de 70, as pessoas com deficiência, síndromes e transtornos globais do desenvolvimento cujas famílias desejavam vê-los um cidadão formado tinham que superar uma gama enorme de obstáculos. Problemas de acessibilidade, total despreparo dos educadores, preconceito e a falta de compromisso dos governantes.

Esta fase era marcada pela educação das pessoas com deficiência, síndromes e transtornos globais do desenvolvimento nas escolas especiais. Todos eram privados da convivência das crianças de sua própria comunidade, tendo apenas os próprios deficientes como colegas. Os surdos e cegos normalmente eram obrigados a abandonar o convívio familiar para assim realizarem seus estudos pois, essas escolas normalmente eram mantidas em apenas algumas capitais do país. Aqueles que apresentavam avanços maiores e que as famílias desejavam mantê-los estudando, passavam a frequentar a escola comum após concluírem o antigo primeiro grau.

Esta difícil fase da história ficou conhecida como integração, onde os estudantes com deficiência, síndromes e transtornos globais do desenvolvimento se matriculavam nas escolas regulares, onde, os mesmos é que tinham que se adaptar à nova realidade que deveriam enfrentar. A partir daquele instante, eles tinham de travar uma luta incessante para superarem todas as dificuldades existentes em seu novo ambiente escolar, visto que nenhuma adaptação lhe era oferecida para amenizar sua árdua jornada.

Professores não tinham nenhum conhecimento em como atender a todos esses alunos que de forma heroica tentavam mudar a sua dura realidade de ignorados por toda uma sociedade. Produção em Braille, atendimento em libras, rampas, banheiros adaptados, tecnologias assistivas, eram desconhecidos por completo daquela comunidade.

Em face das duras condições que as pessoas com deficiência, síndromes e transtornos globais do desenvolvimento tinham que enfrentar para exercer o simples direito de estudar, a maioria esmagadora não chegavam a ultrapassar a soleira das portas de suas casas, sofrendo uma enormidade de problemas e preconceitos, vivendo como um pobre coitado. Quando transpunham as portas de suas residências, no máximo iam às ruas para servirem como fonte de rendas de familiares como pedintes.

Após 1981 ano em que a ONU instituiu como o ano internacional dos deficientes, essa parcela da sociedade passou a ter mais visibilidade e seus problemas passaram a receber mais atenção.

Na década de 90 educação especial passou por muitas transformações, principalmente em sua concepção onde a integração foi substituída pela chamada inclusão. Com esta nova forma de pensar e planejar a educação especial, as escolas regulares é que tinham de se adaptar para assim receberem esse novo público alvo da educação inclusiva. Segundo a legislação em vigor as crianças com deficiência, síndromes e transtornos globais do desenvolvimento preferencialmente deverão ser matriculadas nas escolas regulares que passarão a receber uma grande quantia significativa de investimentos visando o atendimento adequado desse alunado.

A escola inclusiva veio proporcionar o convívio dessas crianças com seus vizinhos e com colegas da comunidade, já que esses não mais precisariam se locomover grandes distâncias para frequentar as aulas nas escolas especiais e nem tampouco ficou a conviverem apenas com os indivíduos que compartilhavam a mesma realidade.
Novas escolas que foram sendo construídas começaram a ser adaptadas visando receber alunos cadeirantes ou de locomoção reduzida, com rampas, banheiros adaptados, acessibilidade às salas de aulas e elevadores. Contudo, a maioria dos prédios antigos não passou por reformas e as adaptações necessárias ainda não tiveram suas obras realizadas. Foram criadas as salas multifuncionais que passaram a oferecer o AEE, Atendimento Educacional Especializado no contra turno da escola, onde os alunos tiveram ofertadas uma educação suplementar, como aprendizagem da libras, português, caso específico dos surdos, Braille, informática para aqueles que apresentam dificuldades motoras ou mobilidade reduzida. Carteiras adaptadas para o uso de cadeirantes, de pessoas com dificuldades motoras ou mobilidade reduzida, tecnologias assistivas que vieram em muito facilitar a vida de todos os deficientes. O problema que se apresenta, é que nem sempre os profissionais que são indicados para estas salas tem a formação necessária.

Na maioria das vezes o critério predominante é político envolvendo principalmente as próprias escolas, acarretando prejuízo significativo na aprendizagem e mal uso de equipamentos, que poderiam auxiliar no desenvolvimento do aluno. Para muitos, responder por essas salas multifuncionais tem apenas o significado de sossego, já que não ficarão com uma classe super lotada. Há ainda a falta de guia intérprete para muitos surdos que estão nas salas num completo abandono. Os livros em Braille quando chegam normalmente os alunos tem acesso a eles com atraso, contrário de seus colegas que os tem oferecidos desde o início do ano letivo. Os professores cegos, caso desse que vos escreve e muitos outros nesta Nação, não recebem livros acessíveis para assim poderem desempenhar suas funções com esmero, autonomia e independência. No aee não é trabalhado nenhum tipo de conteúdo curricular, algo que tem de ser desenvolvido nas salas de aula comuns.

Mesmo com todo o empenho do MEC em promover a educação inclusiva as escolas especiais públicas e privadas foram mantidas, principalmente pela ação do lobby de alguns grupos como as APAES que abiscoitam uma boa fatia das verbas destinadas à educação e saúde.

Isso quer dizer que sejamos contra as escolas especiais? Não, pelo contrário, pois temos crianças que seu atendimento se torna inviável na escola regular pela severidade de suas deficiências. Por outro lado não é mais possível concordar com as enormes estruturas de espaço e pessoal que são mantidas para o atendimento de uma quantidade bem pequena dos alunos que lá vão estudar. O que se imagina para estas escolas nos dias de hoje e principalmente em um futuro bem próximo, é a sua transformação em centros especiais de formação, perdendo a sua condição de estabelecimento de ensino.

Para os casos de crianças de situação extremamente severas, sugiro a criação de centros de convivência aos moldes dos mantidos pelas assistência social, para que as famílias e crianças possam estabelecer um vínculo e socializarem. Tal como nas salas recursos multifuncionais, muitos se afugentam nessas Instituições para assim se beneficiarem do sistema e da dificuldade dos outros. Portanto, é falso afirmar que somente nas escolas especiais estão aproveitadores, esse fenômeno também é verificado na educação inclusiva.

Demagogos que se dizem defensores da inclusão, bons na teoria, mas distantes da realidade das classes, encistem em colocar todos os deficientes na escola comum, sem observar o comprometimento proporcionado pela sua deficiência, esquecendo-se de sua heterogeneidade, desrespeitando suas individualidades. Muitos afirmam que a presença dessa criança é imprescindível naquele estabelecimento de ensino para que haja pelo menos a sua socialização. Todos sabem que há crianças cuja deficiência é tão severa que até o simples ato de socializar se torna algo complexo, mas, lamentavelmente isso é completamente ignorado. Creio que o papel da escola deve ser também o de socializar o indivíduo, com tudo, a sua atribuição primordial não é socializar, mas sim propiciar uma aprendizagem acadêmica, contato com novos valores, dentre outras formações dadas às outras crianças não deficientes.

Obviamente que exigimos um ensino de qualidade, pois, na verdade, esses argumentos de socialização vêm tentar encobrir a total ineficácia de alguns estabelecimentos em cumprir o seu dever para com o ensino-aprendizagem das pessoas com deficiência, síndromes e transtornos globais do desenvolvimento. Com isso, a sua educação fica bastante comprometida, que como se não bastasse as próprias dificuldades já causadas pela deficiência, tem oferecida a uma educação que mais contribuirá para a sua exclusão da sociedade. Tudo isso porque professores desmotivados, despreparados, trabalhadores de classes lotadas não dão a atenção necessária àquele aluno que demanda um atendimento diferenciado. Muitos docentes se recusam a dar uma aula de qualidade para esse aluno alegando que o local dele é em uma escola especial, que eles não sabem trabalhar com aquele tipo de aluno e que as turmas são cheias e eles não conseguem dar atenção para a criança deficiente

Outro problema verificado com extrema frequência é a aceitação dessa criança por parte dos trabalhadores da escola, muitas vezes por puro preconceito, onde são muitas vezes obrigadas a ouvir: “olha o ceguinho”, “o aleijado vem aí”, “cuidado com o surdinho”, “esse é doido”! Sem contar que aquelas que apresentam problema com o comportamento que é julgado inadequado para a sala, ficam com estagiários ou professores de apoio pelos corredores e pátios escolares, quando deveriam estar na classe com seus colegas a desempenhar as atividades que viriam possibilitar sua aprendizagem. Muitos desses alunos ficam passeando pelas Instituições de ensino, “afinal, dão menos trabalho nos pátios que dentro das salas de aula”, é o que alguns mestres do saber afirmam.

Não podemos obviamente deixar de ressaltar que há profissionais extremamente sérios, competentes e devidamente comprometidos com a causa da inclusão e com a educação das pessoas com deficiência, mas mesmo nos nossos dias, esses ainda constituem um grupo pequeno e realmente capacitado, além de demonstrarem interesse em aperfeiçoar sua formação visando o trabalho com esse aluno, público alvo da inclusão.

Esta nova concepção de educação é uma realidade e não há como retroceder. É inegável também que ela trouxe muitas conquistas para os estudantes com deficiência. Daí aceitarmos os seus problemas e não lutarmos para corrigi-los seria um equívoco grave que estaríamos cometendo. Há de se aproveitar o que de bom a inclusão veio proporcionar aos estudantes deficientes ao mesmo tempo é nosso dever promover as alterações de rumos necessárias na educação inclusiva.

• ZIlmar Dias Figueiredo, deficiente visual integrante do Coletivo Nacional da CUT de trabalhadores e trabalhadoras com deficiência, professor de história base do SINDUTE MG. Texto apresentado pelo autor e debatido na reunião do coletivo dias 5 e 6 de dezembro de 2014, em Recife PE. Conclusão nos CECUTs e CONCUT em 2015.

 

 

 




Informativo CUT PE

Cadastre-se e receba periodicamente
nossos boletins informativos.